Da relação ventilada à não-monogamia, usuários da profilaxia relatam que prevenção também faz parte da vida a dois
Written by Thiago Peniche
Se engana quem pensa que a PrEP — a profilaxia pré-exposição ao HIV — é uma estratégia voltada apenas para pessoas solteiras. Para muitos casais, ela se tornou uma ferramenta de cuidado compartilhado, que permite viver a sexualidade com mais tranquilidade, diálogo e segurança.
Neste Dia dos Namorados, o PrEP América do Sul ouviu as histórias de dois casais para entender como a PrEP está presente em diferentes modelos de relacionamento.
Veja o vídeo no Instagram ou acompanhe a matéria abaixo:
Raphael Silva e Rafael Floriano

Foto: Divulgação
Raphael Silva e Rafael Floriano estão juntos há quatro anos. Eles se conheceram por meio de aplicativos de relacionamento, mas a conexão amorosa veio depois de uma amizade construída ao longo do tempo.
Cerca de um ano e meio após se conhecerem, os dois começaram a namorar oficialmente. Hoje, definem a relação como ventilada: uma dinâmica em que casais monogâmicos decidem abrir a relação de forma pontual. No caso dos “Rafaéis”, seus acordos permitem explorar a sexualidade apenas de forma conjunta.
“Nós não nos relacionamos com outras pessoas de maneira separada. Quando temos interesse em alguém, somos sempre nós dois juntos e mais uma pessoa. Temos diálogo sempre aberto e tudo acontece em comum acordo”, explica Rafael.
Segundo eles, a flexibilização dos acordos foi acontecendo naturalmente.
Início da PrEP
O casal iniciou o namoro em uma dinâmica fechada e, somente depois de consolidar a relação e estabelecer confiança, decidiu começar a usar a PrEP.
“Levou cerca de dois anos de namoro até começarmos a PrEP, e foi uma decisão dos dois. A gente brinca que não é aberto totalmente, mas tem a sua flexibilidade para a gente experimentar”, lembra Raphael.

Foto: Divulgação
Monogamia
Para Rafael, a PrEP também ajudou a rever uma crença que carregava sobre a monogamia. Antes, ele via os relacionamentos fechados como uma garantia de proteção. Com o tempo, porém, passou a entender que imprevistos podem acontecer e que o cuidado precisa ir além do status da relação.
“Eu vinha de outros relacionamentos e achava que a monogamia era uma proteção, que você estava 100% seguro. Mas as coisas podem acontecer no meio do caminho. Seu parceiro pode se aventurar de alguma maneira, pode haver um acidente, muitas coisas podem acontecer. Talvez você ache que está protegido só por estar em um relacionamento. Mas não é bem assim que funciona”, afirma.
Segundo Raphael, a PrEP trouxe mais tranquilidade também na hora dos exames.
“Essa segurança de fazer um teste de HIV sem aquela tensão, sem pensar que pode dar positivo, é muito importante. Eu me sinto seguro não só por mim, mas pelo meu parceiro também”, conta.
Belchior e Thiago

Foto: Divulgação
Já Belchior Araújo e Thiago Sena estão juntos há oito anos. Metade desse tempo foi vivida à distância, quando ambos se mudaram para a Europa para cursar mestrado — Thiago no Reino Unido e Belchior na França.
Eles se conheceram pelo Tinder e brincam que a intensidade da conexão fez com que o relacionamento começasse rapidamente.
“Nossa energia bateu muito rápido. Uma semana conversando e, duas semanas depois, quando nos conhecemos pessoalmente, aquele dia já marcou o início do nosso namoro”, recorda Thiago.
Há cerca de um ano, eles passaram a se entender dentro da não-monogamia política, um direcionamento ético e político para a construção de relações. Essa perspectiva busca descentralizar a estrutura de casal tradicionalmente imposta.
“A gente conversa muito sobre respeitar a individualidade um do outro. Nós dois fazemos terapia e evoluímos muito enquanto casal”, diz Belchior.

Foto: Divulgação
Início da PrEP
No caso de Belchior e Thiago, a decisão de começar a PrEP veio em um momento de transformação da relação. O casal havia acabado de iniciar a não-monogamia e os dois estavam há quatro meses sem se ver por conta dos estudos no exterior.
Foi quando, já a caminho do aeroporto para reencontrar o parceiro, Thiago recebeu uma mensagem de um homem com quem havia se relacionado duas semanas antes. Ele havia sido diagnosticado com uma infecção sexualmente transmissível e o avisou para se testar também.
“Eu pensei: ‘Caramba, logo no dia da viagem?!’”, lembra Thiago.
Assim que chegou a Paris, eles procuraram o sistema de saúde francês, e passaram a ser acompanhados pelos serviços de saúde do país. Foi também nesse contexto que ambos começaram a PrEP.
Logo no início, Belchior teve efeitos gastrointestinais por causa da presença de lactose no medicamento. Na França, porém, conseguiu acesso a uma versão alternativa da PrEP, feita com menos lactose, que não provocava os mesmos sintomas.
Não-monogamia
Para Belchior e Thiago, a experiência da não-monogamia também contribuiu para ampliar a forma como enxergam a prevenção.
“A não-monogamia, como diz Geni Núñez, é uma prática anticolonial, que substitui a lógica da posse pela construção de redes de afeto com responsabilidade coletiva. Com a PrEP, eu vejo que passamos a fazer parte desse cuidado coletivo de uma forma muito maior. Não é um cuidado só comigo e com o meu parceiro, mas com todas as outras pessoas“, explica Belchior.
