{"id":6474,"date":"2026-06-08T14:53:57","date_gmt":"2026-06-08T17:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/?p=6474"},"modified":"2026-06-09T14:53:10","modified_gmt":"2026-06-09T17:53:10","slug":"prep-injetavel-os-desafios-para-ampliar-a-prevencao-ao-hiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/?p=6474","title":{"rendered":"PrEP injet\u00e1vel: os desafios para ampliar a preven\u00e7\u00e3o ao HIV"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><sup>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/site\/ABIA<\/sup><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Especialista explica como patentes farmac\u00eauticas podem influenciar o pre\u00e7o e a disponibilidade de novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o, como o lenacapavir<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por: Thiago Peniche<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagine prevenir o HIV com apenas duas aplica\u00e7\u00f5es por ano. Essa \u00e9 a promessa do lenacapavir, uma nova PrEP injet\u00e1vel de longa dura\u00e7\u00e3o apontada como um dos avan\u00e7os mais promissores na preven\u00e7\u00e3o do HIV.<strong> Mas quem ter\u00e1 acesso a essa tecnologia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta passa por um tema que, \u00e0 primeira vista, pode parecer distante do cotidiano das pessoas: <strong>a propriedade intelectual.<\/strong> Patentes farmac\u00eauticas influenciam diretamente o pre\u00e7o dos medicamentos, a produ\u00e7\u00e3o de vers\u00f5es gen\u00e9ricas e a velocidade com que novas tecnologias chegam aos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para discutir esses desafios, <strong>o PrEP na Am\u00e9rica do Sul conversou com Susana van der Ploeg,<\/strong> advogada do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI), coordenado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). Na entrevista, ela explica como funcionam as patentes farmac\u00eauticas, analisa seus impactos sobre o acesso a medicamentos e comenta os desafios para que novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o ao HIV cheguem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Formada em Direito pela Faculdade de Direito do Recife e mestre em Direito e Inova\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Susana atua h\u00e1 cinco anos no GTPI. Ao longo desse per\u00edodo, transitou da pesquisa acad\u00eamica para o movimento social, dedicando-se \u00e0s discuss\u00f5es sobre acesso a medicamentos, propriedade intelectual e direito \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6489\" srcset=\"https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-300x169.jpg 300w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-768x432.jpg 768w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-18x10.jpg 18w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-150x84.jpg 150w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-450x253.jpg 450w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5-1200x675.jpg 1200w, https:\/\/prepamericadosul.uea.edu.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/reuniao-5.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Confira o v\u00eddeo no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DZX8YxvScEd\/\">Instagram <\/a>ou a entrevista completa abaixo:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: O lenacapavir tem sido apontado como uma das maiores inova\u00e7\u00f5es recentes na preven\u00e7\u00e3o do HIV. Qual \u00e9 o potencial dessa nova PrEP injet\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> O lenacapavir \u00e9 uma tecnologia muito promissora. Ele \u00e9 administrado por meio de uma inje\u00e7\u00e3o a cada seis meses. Hoje, no Brasil, a principal estrat\u00e9gia oferecida pelo SUS \u00e9 a PrEP oral di\u00e1ria. Embora seja muito eficaz, ela exige uma rotina que nem sempre se adapta \u00e0 realidade de todas as pessoas: idas recorrentes ao sistema de sa\u00fade para buscar o medicamento, armazenamento em casa e uso di\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, a PrEP injet\u00e1vel amplia as possibilidades de escolha e pode facilitar a ades\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o para pessoas que t\u00eam dificuldade em manter o uso cont\u00ednuo da medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os estudos cl\u00ednicos t\u00eam mostrado resultados muito positivos. Em pesquisas realizadas na \u00c1frica do Sul e em Uganda, o lenacapavir demonstrou alta efic\u00e1cia na preven\u00e7\u00e3o do HIV entre mulheres cisg\u00eanero. Esse resultado \u00e9 importante porque as mulheres cis ainda enfrentam desafios para acessar estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o e, muitas vezes, ficam fora das discuss\u00f5es sobre PrEP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: <\/strong><strong>Quais s\u00e3o os principais obst\u00e1culos para que o lenacapavir chegue \u00e0 popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> O principal desafio \u00e9 garantir o acesso. A gente pode falar v\u00e1rias vezes que o lenacapavir \u00e9 muito bom, que possibilita maior ades\u00e3o, que pode ajudar a combater o estigma e ampliar as op\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o. Mas nada disso vira realidade se a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega \u00e0s pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, por exemplo, o cabotegravir, outra PrEP injet\u00e1vel de longa dura\u00e7\u00e3o, \u00e9 oferecido em farm\u00e1cias por cerca de R$ 4 mil por dose. No caso do lenacapavir, ainda n\u00e3o existe um pre\u00e7o definido para o Brasil. Ao mesmo tempo, j\u00e1 existem estimativas de que vers\u00f5es gen\u00e9ricas poderiam ser produzidas por cerca de US$ 40 por pessoa ao ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pre\u00e7o de US$ 40 por pessoa ao ano \u00e9 menos de um ter\u00e7o do que o Brasil paga hoje para tratamento com o dolutegravir. O dolutegravir hoje est\u00e1 custando R$ 3,60 por comprimido. Teria que fazer uma conta r\u00e1pida: R$ 3,60 vezes 365. A gente est\u00e1 pagando cerca de R$ 1.314 por ano apenas para um \u00fanico medicamento. <strong>E a PrEP precisa estar abaixo desse valor para ser sustent\u00e1vel para o SUS&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final das contas, a discuss\u00e3o passa pelas patentes. Quando uma empresa det\u00e9m a patente de uma tecnologia, ela pode definir quem ter\u00e1 acesso, quem vai produzir e qual ser\u00e1 o pre\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pandemia de Covid-19 mostrou isso de forma muito clara. A gente viu um continente inteiro, o continente africano, enfrentando dificuldades para acessar vacinas, enquanto pa\u00edses ricos tinham doses suficientes para vacinar suas popula\u00e7\u00f5es mais de uma vez. Foi o que muitas pessoas chamaram de <strong>apartheid vacinal.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, quando falamos sobre o lenacapavir, a pergunta n\u00e3o \u00e9 apenas se a tecnologia funciona. A pergunta tamb\u00e9m \u00e9: quem vai ter acesso? Quando vai ter acesso? E quem vai decidir isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De que serve uma inova\u00e7\u00e3o se as pessoas n\u00e3o v\u00e3o ter acesso a ela?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: Como as patentes funcionam e de que forma podem impactar o acesso a medicamentos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> Quando uma empresa obt\u00e9m uma patente sobre um medicamento, ela passa a ter o monop\u00f3lio daquela tecnologia por um per\u00edodo determinado. Isso significa que ela pode impedir que outras empresas produzam, comercializem ou desenvolvam vers\u00f5es daquele produto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, quem det\u00e9m a patente tem o poder de definir quem produzir\u00e1 o medicamento, onde ele ser\u00e1 produzido e qual ser\u00e1 o pre\u00e7o cobrado. Isso cria barreiras de acesso, especialmente quando estamos falando de tecnologias relacionadas \u00e0 sa\u00fade e capazes de salvar vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando existe uma patente sobre um produto farmac\u00eautico, o titular passa a controlar toda a tecnologia. E, ao controlar essa tecnologia, tamb\u00e9m controla quem ter\u00e1 acesso a ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: Quais s\u00e3o os impactos das patentes sobre os pre\u00e7os dos medicamentos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> A aus\u00eancia de concorr\u00eancia permite que as empresas pratiquem pre\u00e7os muito elevados. O pr\u00f3prio lenacapavir \u00e9 um exemplo disso. Estudos j\u00e1 demonstraram que ele poderia ser produzido por algo entre US$ 25 e US$ 40 por pessoa ao ano. No entanto, os pre\u00e7os cobrados atualmente pela ind\u00fastria s\u00e3o milhares de vezes maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fen\u00f4meno n\u00e3o acontece apenas com medicamentos para HIV. Ele faz parte de uma l\u00f3gica em que o titular da patente tem liberdade para definir o valor de mercado de uma tecnologia essencial. No final das contas, isso pode significar que uma inova\u00e7\u00e3o capaz de beneficiar milh\u00f5es de pessoas permanece inacess\u00edvel para grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: Existe alguma alternativa para ampliar o acesso quando as patentes se tornam uma barreira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> Sim. Um dos instrumentos previstos na legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 a licen\u00e7a compuls\u00f3ria. Ela permite que outras empresas produzam determinado medicamento sem a autoriza\u00e7\u00e3o do titular da patente quando o interesse p\u00fablico est\u00e1 em jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes essa medida \u00e9 apresentada como algo radical, mas ela n\u00e3o retira a patente da empresa. O titular continua sendo o propriet\u00e1rio da tecnologia e continua recebendo royalties pela produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do medicamento. O objetivo \u00e9 equilibrar o direito de propriedade intelectual com a necessidade de proteger a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando mais produtores podem fabricar um medicamento, os pre\u00e7os tendem a cair e o acesso aumenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PrEP Am\u00e9rica do Sul: O que precisa mudar para que novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o ao HIV cheguem mais rapidamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Susana van der Ploeg:<\/strong> Precisamos fortalecer a mobiliza\u00e7\u00e3o social e ampliar o debate p\u00fablico sobre propriedade intelectual e acesso a medicamentos. Muitas vezes as pessoas n\u00e3o percebem como esses temas influenciam diretamente suas vidas e os sistemas de sa\u00fade. As pessoas n\u00e3o entendem por que um medicamento custa R$ 200 e, quando colocam o CPF, ele passa a custar R$ 73. Quem controla esses pre\u00e7os? Esse medicamento tem patente? Por que o m\u00e9dico receita um produto de marca quando existe um gen\u00e9rico no mercado?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gente vive sob uma influ\u00eancia muito grande da ind\u00fastria farmac\u00eautica, que tem poder para influenciar pre\u00e7os, pesquisas, pol\u00edticas p\u00fablicas e at\u00e9 o debate sobre inova\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 importante que a sociedade compreenda melhor como funcionam as patentes e quais s\u00e3o seus impactos sobre o acesso a medicamentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que existam decis\u00f5es pol\u00edticas firmes em defesa do interesse p\u00fablico. O Brasil possui um sistema de sa\u00fade com enorme capacidade de compra e um hist\u00f3rico importante na resposta ao HIV. Esse potencial pode ser utilizado para fortalecer a produ\u00e7\u00e3o nacional e ampliar o acesso a tecnologias essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nenhuma inova\u00e7\u00e3o ser\u00e1 suficiente sozinha. Para enfrentar a epidemia de HIV \u00e9 preciso uma pol\u00edtica integrada, que inclua preven\u00e7\u00e3o, tratamento, combate ao estigma, acolhimento e participa\u00e7\u00e3o das comunidades afetadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gente precisa de uma pol\u00edtica que seja a favor do uso da camisinha, que distribua preservativos nas cestas b\u00e1sicas. A gente precisa falar sobre sexualidade sem uma perspectiva moralista. As pessoas s\u00e3o livres para fazer suas escolhas e precisam ter acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0s ferramentas de preven\u00e7\u00e3o. Se quisermos enfrentar a epidemia de HIV, precisamos de uma pol\u00edtica integrada, que combine preven\u00e7\u00e3o, tratamento, combate ao estigma e acolhimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/site\/ABIA Especialista explica como patentes farmac\u00eauticas podem influenciar o pre\u00e7o e a disponibilidade de novas tecnologias de preven\u00e7\u00e3o, como o lenacapavir Por: Thiago Peniche Imagine prevenir o HIV com apenas duas aplica\u00e7\u00f5es por ano. 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