“A PrEP é para todo mundo”: experiências de uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) para HIV por mulheres cisgênero e transgênero
Apesar de a PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV) ser uma das principais estratégias de prevenção combinada disponíveis hoje no SUS, ela ainda é pouco associada às mulheres. Questões como estigma, falta de informação, barreiras nos serviços de saúde e desigualdades de gênero influenciam diretamente o acesso e a permanência nessa estratégia de prevenção — especialmente entre mulheres cis e trans.
Nesta entrevista para a série “Em campo”, conversamos com Catarina Motta, enfermeira e mestre em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher (PGSCM) oferecido pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) da Fiocruz. Em sua dissertação, intitulada “A PrEP é para todo mundo: experiências de uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) para HIV por mulheres cisgênero e transgênero”, trabalho orientado por Ivia Maksud, a pesquisadora investigou as experiências de uso da PrEP entre mulheres cis e trans no Rio de Janeiro, analisando como gênero, sexualidade, classe e estigma atravessam o acesso à prevenção do HIV.

Da esquerda para a direita: a orientadora, Ivia Maksud, Catarina Motta e a pesquisadora Claudia Mora ((CLAM/IMS/UERJ). Ao fundo: Marcos Nascimento, docente do PGSCM. / Foto: Divulgação
PrEP América do Sul: Para começar, você pode explicar qual foi o objetivo da sua dissertação?
Catarina: O objetivo foi compreender as experiências de uso da PrEP por mulheres cis e trans. Eu analisei essas experiências a partir de marcadores interseccionais, como raça, classe, gênero e sexualidade, entendendo as particularidades das mulheres cis e trans em relação ao acesso e ao uso da profilaxia.
PrEP América do Sul: Onde a pesquisa foi feita e qual foi a metodologia?
Catarina: A pesquisa foi realizada no Rio de Janeiro e teve natureza qualitativa. Fizemos entrevistas individuais semiestruturadas, todas presenciais. Utilizamos redes de relação e a técnica “bola de neve” para conseguir participantes. Depois, realizamos uma análise temática dos dados, da qual emergiram 38 unidades de significação e cinco categorias finais de análise.
PrEP América do Sul: Quais desafios surgiram nesse caminho?
Catarina: Um dos principais desafios foi encontrar mulheres que utilizassem PrEP e aceitassem compartilhar suas experiências, especialmente mulheres trans. Inicialmente, a pesquisa previa dez participantes, mas conseguimos entrevistar seis mulheres: quatro cis e duas trans. Também percebi, ao longo das entrevistas, um processo de aprendizado constante sobre como conduzir o campo e aprofundar as perguntas.
PrEP América do Sul: Então, você teve dificuldade para encontrar mulheres trans que aceitassem compartilhar as suas experiências?
Catarina: Sim. Uma das participantes trans falou algo que me marcou muito: existe um certo cansaço em participar de pesquisas sem retorno concreto para essa população. Muitas mulheres trans são constantemente chamadas para entrevistas e pesquisas, mas sentem que isso nem sempre se transforma em melhorias concretas nas políticas públicas ou nos serviços de saúde. Isso me fez refletir bastante sobre a própria produção de conhecimento.
PrEP América do Sul: Como raça e classe atravessaram a pesquisa?
Catarina: A gente teve bastante dificuldade para encontrar participantes no geral, e isso também impactou essa diversidade racial e social. Cinco das seis participantes tinham ensino superior completo e uma estava cursando ensino superior. Então eram mulheres com um nível elevado de escolaridade, o que influencia diretamente o acesso à informação, aos serviços de saúde e à própria PrEP.
A questão racial não emergiu de forma muito forte nas entrevistas. Entre as seis participantes, duas se autodeclararam pardas e não tivemos participantes que se autodeclararam negras. Então isso acabou sendo uma limitação importante da pesquisa.
Por isso, considero muito importante que futuras pesquisas consigam ampliar esse número de participantes para trazer experiências mais diversas.
PrEP América do Sul: Quais foram os principais resultados da pesquisa?
Catarina: As motivações mais frequentes para começar a usar a PrEP foram não estar em um relacionamento considerado fixo e ter múltiplos parceiros. Também apareceu muito a dificuldade de negociar o uso do preservativo nas relações sexuais. Então, a PrEP surge como uma proteção extra.
Sobre a inconstância no uso da camisinha, as entrevistadas relataram que não acontece por falta de informação sobre HIV, mas por questões relacionadas à negociação com parceiros. Então, não é só uma questão de querer ou não querer usar. Mas também foi dito que elas nem sempre queriam usar preservativo. E também, muitas utilizavam outras estratégias de redução de danos, como exames frequentes, diálogo com parceiros e a própria PrEP.
PrEP América do Sul: Teve algum relato que te marcou especialmente durante as entrevistas?
Catarina: Um dos relatos que mais me marcou foi o de uma participante que contou que conheceu a PrEP através de uma ação da “van do SUS”. Ela saiu com amigas numa sexta-feira e encontrou essa ação na rua, que distribuía preservativos, falava sobre vacinação e prevenção. Até então, ela nunca tinha ouvido falar sobre a PrEP para mulheres.
Isso me marcou muito porque mostra como muitas vezes o acesso à informação ainda depende dessas ações de educação em saúde no território.
PrEP América do Sul: Quais foram as principais motivações que levaram essas mulheres a buscar a PrEP?
Catarina: Uma participante contou que começou a usar a PrEP também por medo de sofrer violência sexual. Ela usou até a expressão “medo irracional”, mas dizia que se sentia mais segura sabendo que teria uma proteção contra o HIV caso algo acontecesse. Foi um relato que me marcou muito.
PrEP América do Sul: A pesquisa também aborda a descontinuidade do uso da PrEP. Quais foram os principais motivos relatados pelas participantes para interromper o uso?
Catarina: Os motivos mais frequentes para interromper o uso foram o início de um relacionamento considerado monogâmico, a dificuldade de conciliar os horários de acompanhamento nos serviços de saúde e a percepção de que elas não estavam mais em situação de vulnerabilidade ao HIV.
Teve uma participante, por exemplo, que começou a usar a PrEP após uma situação específica em que se sentiu vulnerável. Depois que aquela situação terminou, ela disse que não sentia mais necessidade de continuar utilizando a profilaxia. Isso mostra como muitas mulheres associam o uso da PrEP a determinados momentos da vida e a contextos específicos das relações afetivas e sexuais.
PrEP América do Sul: Você diria que as participantes associam a monogamia a uma sensação de proteção? Como a monogamia aparece entre os relatos?
Catarina: Sim, muitos relatos associavam relacionamentos monogâmicos a uma sensação de proteção. Uma participante falou algo muito marcante: ela acreditava estar em um relacionamento monogâmico, mas depois percebeu que essa monogamia existia “só para ela”. Foi depois dessa experiência que decidiu começar a usar PrEP.
Isso mostra como muitas mulheres não se percebem em situação de vulnerabilidade ao HIV dentro de relações consideradas estáveis, mesmo que existam situações de infidelidade ou dificuldade de negociação sexual.
PrEP América do Sul: Você acha que existe uma “masculinização” da política de PrEP?
Catarina: Eu acredito que sim. A PrEP ainda é muito pouco associada às mulheres. Isso tem relação com a própria história da epidemia de HIV/aids no Brasil. No início, o HIV foi muito associado aos homens gays e às chamadas “populações-chave”, termo que aparecia inclusive em documentos oficiais e protocolos clínicos.
Então, ainda hoje, existe uma percepção de que a PrEP seria destinada principalmente a homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e profissionais do sexo. Além disso, vejo um enfraquecimento muito grande das campanhas de comunicação voltadas para prevenção do HIV direcionadas às mulheres.
PrEP América do Sul: Sobre as mulheres trans, quais barreiras específicas aparecem nas experiências delas?
Catarina: As mulheres trans relataram preocupações muito relacionadas à transfobia e ao preconceito nos serviços de saúde. Elas falavam não apenas dos profissionais diretamente envolvidos no atendimento da PrEP, mas também de outros trabalhadores das unidades, como seguranças, recepcionistas e funcionários administrativos.
Uma das questões levantadas foi a necessidade de capacitação de toda a equipe da unidade de saúde. Enquanto mulheres cis relatavam mais preocupação com o estigma associado ao HIV, as mulheres trans falavam também do medo da discriminação e da violência institucional.
PrEP América do Sul: A questão dos efeitos colaterais apareceu de forma diferente entre mulheres cis e trans?
Catarina: Sim. Entre as mulheres cis, aparecia mais uma preocupação geral com possíveis efeitos colaterais da medicação. Já entre as mulheres trans, a principal preocupação era a interação entre a PrEP e a terapia hormonal.
Também surgiu uma crítica importante sobre a falta de orientação dos serviços de saúde em relação aos efeitos colaterais. Algumas participantes disseram que os profissionais informavam que eles poderiam acontecer, mas não explicavam o que fazer caso aparecessem sintomas, o que pode acabar levando ao abandono da medicação.
PrEP América do Sul: O estigma associado à PrEP apareceu nas entrevistas?
Catarina: Bastante. Algumas participantes relataram medo de familiares, parceiros ou pessoas próximas associarem a PrEP à promiscuidade ou ao tratamento do HIV. Uma participante contou que familiares viram a medicação e perguntaram se ela tinha HIV.
Também surgiram relatos de receio de conversar sobre o uso da PrEP com parceiros, especialmente em relacionamentos considerados monogâmicos, porque isso poderia gerar desconfiança ou suspeitas de infidelidade.
PrEP América do Sul: Como foram as experiências nos serviços de saúde?
Catarina: No geral, as participantes relataram experiências positivas, mas também apareceram críticas importantes. Algumas mulheres tiveram acesso facilitado à informação por serem da área da saúde ou terem contato com profissionais da saúde.
Por outro lado, surgiram questões relacionadas ao horário de funcionamento dos serviços, dificuldade de acesso e falta de acolhimento em alguns espaços administrativos das unidades. Uma participante comentou, por exemplo, que profissionais do sexo poderiam se beneficiar muito da PrEP, mas muitas vezes não conseguem acessar os serviços por incompatibilidade de horários.
PrEP América do Sul: E como sua pesquisa pode contribuir para as políticas públicas?
Catarina: Acredito que a dissertação pode ajudar a pensar estratégias mais inclusivas de acesso à PrEP. Precisamos ampliar campanhas voltadas às mulheres, enfrentar o estigma associado à profilaxia e fortalecer o acolhimento nos serviços de saúde.
A pesquisa também mostra que as experiências das mulheres com a PrEP são atravessadas por questões de gênero, sexualidade, relações afetivas, violência e desigualdade social. Entender essas experiências é fundamental para construir políticas públicas mais efetivas e realmente universais.
