PrEP e mulheres cis: Entrevista com Thaís Naves
O Dia Mundial de Resposta à Aids, lembrado todo 1º de dezembro, é um convite para ampliar a conversa sobre prevenção do HIV também entre mulheres cis — um grupo que permanece historicamente à margem das políticas e serviços de PrEP no Brasil.
Embora a PrEP seja uma tecnologia de prevenção disponível gratuitamente no SUS, seu acesso ainda não é equitativo. Segundo o Painel PrEP do Ministério da Saúde, apenas 6,6% das pessoas que utilizam PrEP no Brasil são mulheres cis. Em contraste, 80,2% são homens cis gays ou HSH (homens que fazem sexo com homens).

Print de tela do Painel PrEP/Ministério da Saúde
Esses números revelam que mulheres cis continuam sem acesso efetivo à PrEP, seja por falta de informação, barreiras estruturais nos serviços de saúde ou estigmas relacionados à sexualidade feminina.
Para compreender melhor esses obstáculos, o PrEP América do Sul conversou com Thais Naves, professora de Ciências Sociais e mulher cis usuária de PrEP, que conta quais foram as suas dificuldades para acessar a prevenção em Rio Claro, no interior de São Paulo.
📺 Assista à entrevista completa em nosso Instagram ou, se preferir, leia a transcrição completa abaixo.

Entrevista com Thais Naves, realizada por Thiago Peniche (PrEP América do Sul).
Transcrição — Entrevista com Thaís Naves
PrEP América do Sul:
Quando foi a primeira vez que você ouviu falar em PrEP?
Thais:
Foi nas redes sociais. E, para além disso, eu sempre busquei informações, porque como professora, eu sempre passava esses métodos — tanto de prevenção contra ISTs quanto de contracepção — para os meus alunos do ensino médio.
PrEP América do Sul:
Você, como mulher cis… não é muito comum que mulheres cis façam uso da PrEP. O que fez você considerar começar?
Thais:
Eu sou uma mulher cis pansexual. Então eu me relaciono com pessoas com vulva. Esse foi o principal motivo de eu começar a tomar: porque para pessoas como eu só existe esse método autônomo, para além da testagem. Não tem outro método assim.
Além disso, eu tive contato com uma amiga que contraiu HIV, e isso foi um alerta para mim de que entre pessoas como eu isso (a transmissão do HIV) também acontece.
PrEP América do Sul:
Você lembra de ter algum medo de começar a PrEP?
Thais:
Sim. Eu tomo outras medicações, então meu medo era sobrecarregar o fígado. Mas foi super tranquilo, eu não tive nenhum efeito colateral, nem sobrecarga. Muito pelo contrário: agora, com a PrEP, eu acompanho muito mais a minha saúde — do fígado, dos rins… Faço exames a cada três meses, algo que eu não fazia antes. Então, ao invés de piorar, como eu imaginava, melhorou. Eu diria que melhorou minha saúde integral, não só a sexual.
PrEP América do Sul:
Onde você começou a acessar a PrEP?
Thais:
Hoje moro no interior de São Paulo, mas comecei a PrEP na capital. Foi super tranquilo: cheguei, falei que queria tomar, fiz os exames, e logo depois já estava com a medicação. Tiraram todas as minhas dúvidas.
Mas quando vim para o interior, senti o estigma. Fui a um centro especializado e, logo de cara, perguntaram se eu vivia com HIV. Disse que não, que estava ali só para continuar o tratamento. Senti que precisei me explicar demais, me expor demais. Me perguntavam “Ah, mas você não usa camisinha? Mas você não é isso? Não é aquilo?”. Eu me senti exposta.
Outra coisa: quando vou buscar a PrEP, sempre procuram meu nome na lista de pessoas já que vivem com HIV.
PrEP América do Sul:
Você já indicou a PrEP para alguma amiga?
Thais:
Já. Para duas amigas. Mas elas não deram continuidade porque, quando chegaram no Sepa (centro especializado), enfrentaram várias dificuldades: exigências, perguntas constrangedoras… elas também se sentiram super expostas. Uma delas teve até que mentir, dizer que “tinha um monte de relação por aí” para tentarem liberar a medicação — e mesmo assim saiu sem. Acho que no interior é mais difícil para mulheres cis. Essa amiga, inclusive, desistiu da PrEP porque dificultaram demais o acesso.
PrEP América do Sul:
Você sofre algum tipo de estigma?
Thais:
Os momentos em que mais me senti estigmatizada foram dentro da própria saúde. Uma vez, em um exame periódico perguntaram quais medicações eu tomava e eu disse que tomava a PrEP.
A médica perguntou “Nossa, mas por quê?” e fez várias perguntas. No fim, ela disse para eu “não falar isso no próximo exame”. Era um exame do Estado, da educação. Mesmo depois de tantos anos, falar sobre HIV e AIDS ainda é um tabu enorme no Brasil.
PrEP América do Sul:
O que você mais gosta sobre tomar PrEP?
Thais:
A autonomia. A autonomia da minha prevenção.
Sempre é dado ao homem cis o papel da prevenção e da contracepção.
E eu, enquanto mulher cis, tomar algo que me previne… e isso ser só meu… eu acho incrível, revolucionário.
E também: quase ninguém usa camisinha interna. Ela não foi naturalizada na nossa sociedade. Quando converso entre amigas, elas dizem que “é feio, fica um negócio para fora”, e muitas relatam desconforto. A sociedade não incorporou a camisinha interna. E também existe a prática muito comum de homens cis retirarem a camisinha durante a relação. Então a PrEP me dá alguma segurança — pelo menos em relação ao HIV.
PrEP América do Sul:
Você vê campanhas de PrEP direcionadas para mulheres cis?
Thais:
Não vejo. Talvez por eu ser LGBT eu tenha mais acesso a informação, mas campanhas feitas realmente para mulheres cis… não vejo.
PrEP América do Sul:
E como você vê a importância da PrEP para mulheres cis?
Thais:
Hoje vejo como essencial. Para mulheres solteiras e casadas.
Ainda existe a ideia de que prevenção é “para solteiros”, como se casados não precisassem — como se fidelidade, por si só, fosse um método de prevenção. Não é.
PrEP América do Sul:
Tem mais algo que você goste sobre a PrEP?
Thais:
Me lembrei agora de outra coisa positiva: O Ministério da Saúde disponibilizou a vacina de HPV no ano passado e, este ano, a de hepatite A para quem usa PrEP. Quem usa PrEP tem direito a essas imunizações, então isso também é muito legal.
PrEP América do Sul:
Pode deixar uma mensagem final para mulheres cis que estão assistindo?
Thais:
Mulheres cis, usem PrEP.
Sejam heterossexuais, pansexuais, bissexuais — de qualquer orientação.
É muito importante ter autonomia sobre a nossa prevenção.
A gente precisa ser agente principal do cuidado com nós mesmas.
