Medicamento em estudo pode permitir o uso da PrEP em um comprimido mensal; em entrevista ao PrEP América do Sul, especialista explica os benefícios da nova formulação
A prevenção do HIV pode ganhar uma nova opção nos próximos anos: um comprimido de PrEP que, se os estudos confirmarem sua eficácia e segurança, poderá ser tomado uma vez por mês. A tecnologia está sendo avaliada em estudos clínicos com o medicamento MK-8527, desenvolvido pela MSD/Merck.
Para o infectologista Álvaro Costa, que participa da pesquisa da Merck na Casa da Pesquisa do CRT (Centro de Referência e Treinamento do Estado de São Paulo), a possibilidade representa uma nova etapa na evolução da PrEP, que passou do comprimido diário para alternativas de longa duração, como as formulações injetáveis.
A pesquisa é realizada em 16 países e tem previsão de duração de três anos. Enquanto os resultados não estão disponíveis, o medicamento ainda não pode ser considerado uma opção de PrEP aprovada para uso.
A seguir, Álvaro explica os benefícios da PrEP Mensal e avalia como será o futuro da prevenção do HIV.
Vídeo: PrEP Mensal: Nova opção em estudo
PrEP América do Sul: O que mudaria na prática se a PrEP mensal se mostrar eficaz?
Dr. Álvaro: Uma droga oral de uma vez por mês realmente muda os paradigmas. Hoje temos a PrEP oral diária disponível no SUS e temos conversado bastante sobre as possibilidades de incorporação das tecnologias injetáveis de longa duração. Mas uma opção oral mensal poderia oferecer ainda mais liberdade para o usuário.
Ela seria uma alternativa para quem não quer ou não consegue utilizar uma medicação todos os dias ou fazer aplicações periódicas. Também facilitaria o acompanhamento, porque criaria uma referência clara para lembrar da próxima dose. Outro ponto importante é que poderia ajudar pessoas que não se sentem confortáveis em carregar a PrEP diária por causa do estigma relacionado ao HIV.
Um outro ponto é a importância de pensarmos em uma prevenção mais personalizada. Em vez de uma única estratégia, o futuro pode oferecer diferentes opções, de acordo com as necessidades e preferências de cada pessoa.
PrEP América do Sul: A PrEP mensal poderia ajudar a ampliar o acesso à prevenção do HIV?
Dr. Álvaro: Pode, mas não basta desenvolver uma nova tecnologia. Hoje, apesar de a PrEP ser eficaz e segura para diferentes populações, o acesso ainda é bastante concentrado em homens gays brancos que vivem em grandes centros.
Precisamos ampliar esse acesso para outras populações, incluindo mulheres, pessoas trans e pessoas que vivem em regiões onde a oferta ainda é limitada. Esse é um desafio não apenas do Brasil, mas também da América do Sul.
PrEP América do Sul: O que os estudos ainda precisam responder antes que essa PrEP possa chegar à população?
Dr. Álvaro: É preciso avaliar segurança, eficácia, eventos adversos e também a capacidade de as pessoas incorporarem essa tecnologia à rotina. Depois, entram outras questões, como custo e efetividade, que são fundamentais para pensar em uma eventual implementação.
Uma tecnologia pode ser fantástica, mas precisamos saber quanto ela vai custar e como ela poderá chegar às pessoas que precisam.
PrEP América do Sul: Como você imagina o futuro da prevenção do HIV?
Dr. Álvaro: Eu vejo um futuro com um painel muito grande de possibilidades. A PrEP oral continua, as tecnologias injetáveis de longa duração também, e, se o comprimido mensal tiver resultados positivos, ele poderá entrar nesse conjunto.
O ideal é ter um verdadeiro cardápio de prevenção, para que a pessoa possa escolher ou até transitar entre diferentes tecnologias de acordo com o que funciona melhor para sua vida.

